Burnout e a Crise de Saúde Mental no Ensino Superior
É inegável que o ingresso no ensino superior coincide com uma fase de transição complexa para os jovens na qual a pressão académica se mistura naturalmente com a construção da identidade e os desafios da vida pessoal. E é portanto natural que às vezes os estudantes quebrem. Às vezes a pressão é simplesmente demasiada, às vezes é difícil lidar com a realidade, e, consequentemente, às vezes entramos em burnout .
Pela idade e pressão dos estudantes, alguns casos de burnout seriam compreensíveis. Mas o que enfrentamos hoje não são episódios isolados, mas sim um fenómeno sistemático em que o burnout deixou de ser a exceção para se tornar a norma cultural no ensino superior. Atualmente, o burnout académico é, essencialmente, uma crise de saúde pública, com praticamente ⅔ dos estudantes a reportar sintomas de burnout, que se manifestam não só em exaustão, mas num cinismo defensivo e numa profunda sensação de incapacidade de lidar com a vida e a realidade que enfrentam. (1)
O burnout em particular é apenas parte de uma crise muito mais alargada de saúde mental no ensino superior português. De acordo com a FAP, no fim do semestre, 8 em cada 10 estudantes da Universidade do Porto reportam um declínio severo do seu bem-estar psicológico, nos períodos de avaliação esse número sobe para 9 em cada 10. Quando uma esmagadora maioria de uma população partilha um sintoma negativo, esse sintoma deixa de ser um problema de saúde individual para se tornar numa característica ambiental. Esta crise não nasce, portanto, de uma fragilidade individual, mas sim da natureza estrutural do ensino superior cuja pressão académica. (2)
Para sobreviver a esta pressão sistémica, instalou-se uma cultura de recurso ao consumo de fármacos para preservar a performance académica. Cerca de 40% dos estudantes consomem psicotrópicos e cerca de 9% dos estudantes consomem anfetaminas ou estimulantes, pelo menos todas as semanas, num ciclo perverso onde se usam estimulantes para aguentar o ritmo e sedativos para conseguir dormir. Isto não são números recreativos, isto são números que revelam uma faixa particular da população que, na face de stress extremo, procura, através do recurso a fármacos, sobreviver a todo o custo às exigências modernas da pressão académica. (3)
Quando o estudante, inevitavelmente, quebra, encontra um ecossistema de apoio que funciona como um labirinto burocrático onde, embora existam serviços, como os SASUP, PsiCA, NAE, estes são complexos, por vezes distantes, e incapazes de cobrir o espaço brutal entre a necessidade e o acesso, fruto da falta crónica de recursos humanos e capacidade institucional. Segundo os inquéritos da FAP, embora 75% dos estudantes sintam que o declínio do bem-estar interfere nas suas atividades académicas, apenas 3 em cada 10 conseguiu aceder a acompanhamento psicológico. O resto dos estudantes fica preso entre o serviço público gratuito, mas, saturado com listas de espera de meses, e um setor privado incomportável. (4)
As soluções governamentais até agora revelam-se ineficazes, o Cheque-Psicólogo, por exemplo, exclui alunos com pensamentos suicidas, com comportamentos aditivos, com diagnóstico de perturbação psicótica, bipolar ou da personalidade, e em particular, com sintomas com duração superior a um ano e meio. Uma solução mais performativa do que eficaz e isto é uma tendência geral mesmo dentro das instituições académicas. Por exemplo, workshops de mindfulness e gestão de tempo, embora úteis para a literacia, são ineficazes de uma ótica estrutural. Ensinar um aluno mindfulness, por mais positivo que seja, não resolve o facto de ele ter 46 horas de ocupação semanal, um valor muito acima da média europeia. (5)
A verdadeira solução, defendida pelos próprios estudantes, exige uma abordagem sistemática para uma crise sistemática: repensar os currículos, contratar massivamente profissionais de saúde mental e reforçar os serviços públicos e institucionais, e, crucialmente, considerar reformas como a semana académica de quatro dias para devolver o tempo e a humanidade à experiência universitária.
Continuar assim não é apenas negativo, mas profundamente desumano.
Referências:
2- https://forum.pt/estudantes/estudantes-universitarios-do-porto-sentem-declinio-na-saude-mental-com-exames / https://fap.pt/noticias/resultados-do-inquerito-epoca-de-avaliacao-na-academia-do-porto-e-os-seus-impactos-na-saude
3- https://www.dn.pt/sociedade/universit%C3%A1rios-querem-menos-sobrecarga-de-avalia%C3%A7%C3%B5es-40-consomem-medicamentos-psicotr%C3%B3picos / https://forum.pt/estudantes/um-retrato-da-saude-mental-no-ensino-superior
4- https://forum.pt/estudantes/estudantes-universitarios-do-porto-sentem-declinio-na-saude-mental-com-exames / https://fap.pt/noticias/resultados-do-inquerito-epoca-de-avaliacao-na-academia-do-porto-e-os-seus-impactos-na-saude